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STAGE / ETAPA 14
VALE DA TELHA (ALJEZUR) / SAGRES

16 JUNE 2018

60 KM / 985 M+

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ALTIMETRY PDF / PDF ALTIMETRIA

 

DIÁRIO DA ETAPA DE UMA TRAVESSIA ANTERIOR

Ao ver o mar pela primeira vez, depois de 14 dias das mais belas paisagens de campo, senti uma grande emoção. Tínhamos mais uma vez conseguido unir os dois cantos mais opostos de Portugal.
De súbito tudo ficou diferente, o azul passou a dominar, forte muito forte  na visão do oceano e claro muito límpido no céu.
A costa Vicentina é um daqueles locais onde a Natureza reina.
Os nossos caminhos começaram a ter alguma areia a dificultar a progressão e pouco a pouco vamos aproximando-nos das grandes falésias da costa. Já perto da Carrapateira vamos finalmente estar tão próximos do mar que passamos a senti-lo também no olfacto e a brisa torna-se mais fresca. Mais à frente já estamos rodeados de mar por todo o lado enquanto rolamos no estradão sobre a falésia a caminho da Praia do Amado. É a altura das fotografias que vão eternizar as memórias desta etapa, desta Travessia, deste grupo de amigos e das emoções vividas.
Atravessamos a Praia do Amado num single track nas falésias.
É na subida a sair da praia que se têm as melhores vistas deste local mas a concentração é exigida para vencer esta dura subida e parar só mesmo lá no alto, onde perdidos de novo entre as estevas da serraria vamos ao encontro
da mais afamada descida de toda a Travessia. 100 metros quase verticais com degraus pelo meio. Quase sentados no pneu traseiro alguns de nós lá se aventuraram e dois venceram. Parabéns Bruno e parabéns Mário, e a outros tantos que já fizeram. Outros tentaram, várias vezes, mas a “sorte” não esteve do seu lado e lá foram prometendo que haveriam de voltar.
A Travessia aproxima-se do fim e como habitualmente reunimos os dois grupos e decidimos pedalar juntos até Sagres. Sempre acompanhando a linha da costa passámos pelas praias da Barriga e Cordoama, onde por indicação do nosso amigo Leandro experimentamos uma descida em single track muito interessante e divertida que termina mesmo junto ao restaurante na praia. Aqui parámos para umas sandes e uns gelados. Era a última paragem, pairava entre todos já uma alegria transbordante, uma feliz sensação de missão cumprida.
Atravessamos Portugal à custa no nosso suor, percorremos 1100 kms dia após dia pedalando subindo e descendo as serras e locais do vosso desconhecimento. É uma sensação maravilhosa, por momentos é-se “grande” e em nós cabem sentimentos de profunda satisfação e até orgulho.
Mas para sair da praia tínhamos a última subida da Travessia que seria feita quase toda a pé empurrando ou acartando a nossa companheira de aventura, a nossa querida BTT que nos trouxe até aqui. Éramos agora nós que para acabar a levávamos agora ao colo naquela subida. E com este sentimento de ternura lá a carregámos até ao alto das grandes falésias da Torre de Aspa.
Finalmente Sagres na linha do horizonte. Todos parámos em silêncio primeiro e depois numa grande euforia exortamos a nossa satisfação. Abordamos Sagres rolando pelos estradões planos do Vale Santo, tomando a estrada do cabo de S. Vicente junto à Praia do Belixe. Mas o fim prometido era na Praia da Mareta, dentro de água, todos vestidos com as lycras para grande espanto dos banhistas que atónitos não compreendiam a razão para toda aquele alarido, toda aquela euforia que se manifestava em mergulhos sucessivos naquele mar que durante tantos dias se ansiou.
A Travessia  tinha virado a última página e para trás ficaram talvez os melhores momentos das nossas vidas. Dizia-me ao jantar um dos totalistas; “...depois disto não sei mais que passeios de BTT irei fazer, aprendi que há outra dimensão e nunca mais serei a mesma pessoa”. Os 30 reunidos à volta de uma mesa decorada com 2 grandes panelões de massinha de lagosta, meditei sobre o que fazia com que toda esta gente largasse tudo e todos para se agarrarem à bicicleta durante todos estes dias e suando desalmadamente martirizava os músculos, esturrando ao sol, arfando serra acima, correndo alguns perigos serra abaixo (alguns perdendo pele e não só), comendo durante o dia gels, barras e outras porcarias que de semelhança com as práticas do antigamente só têm o alumínio que as envolve, hoje a folha de alumínio, ontem as marmitas, e caindo de cansaço à noite se arrastavam para um quarto onde nalguns casos tinham por companhia alguém que não conheciam antes da Travessia e sem quaisquer preconceitos lhe ressonavam nos ouvidos a noite inteira. E fui concluindo que existe esta força interior que nos faz saltar para cima do selim para sentir a liberdade da nossa existência desmotorizada, para sentir o cansaço físico como o maior inimigo do stress do dia-a-dia, para sentir o prazer da brisa fresca na cara, desinibidos e na companhia de outros de quem se ignora e se quer ignorar as profissões ou títulos, se liberta e revive a criança que está dentro de nós.Alguém me perguntou à despedida “Já estão abertas as inscrições para a Travessia do próximo ano?” é que quero voltar para o ano.” E isto diz tudo sobre a Travessia.
Muito obrigado a todos os que participaram, teriam gostado de participar, nos apoiaram e ajudaram.
Ponto final.
Um grande abraço para todos
António Malvar

  

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